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E
se...
A ESCRAVIDÃO NÃO TIVESSE SIDO ABOLIDA?
Se
ainda existissem escravos, dificilmente haveria a economia
de mercado de hojecompor
as principais características sociais e econômicas do
mundo atual. “O fim da escravidão foi um fenômeno
social ligado às exigências das economias industriais,
que precisavam mais de mercados consumidores do que de mão-de-obra
nas colônias”, afirma o antropólogo zairense Kabengelê
Munanga, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Cem
Anos de Bibliografia Sobre o Negro no Brasil.
A história africana também seria outra. Enquanto vigorou
o tráfico negreiro, entre 1450 e o final do século XIX,
cerca de 12 milhões de negros foram retirados do
continente. Se a sangria demográfica continuasse, não
haveria mão-de-obra local quando as potências coloniais
decidiram extrair dali a matéria-prima que sustentaria o
seu desenvolvimento no século XX. Ou seja, a libertação
dos escravos tem tudo a ver com o desenvolvimento da
economia de mercado.
Para o professor Paul Lovejoy, da Universidade de York, em
Montreal, autor do recente Atlas Histórico da Escravidão,
se a prática escravagista não tivesse sido abolida, as
principais mudanças que sentiríamos seriam de ordem
social. “A escravidão era defendida ou tolerada pelas
principais instituições políticas e sociais da época,
entre elas Igreja, universidades e empresas”, diz
Lovejoy. “A abolição foi o maior processo de inclusão
social de que se tem notícia e abriu espaço para as
sociedades multirraciais. Foi o fim da escravidão que
consolidou os ideais de igualdade e de condenação do
racismo, hoje ponto comum em quase todas as legislações
do planeta.”
Mas é perigoso pensar na escravidão como algo extinto há
tempos imemoriais. Embora o tráfico negreiro tenha
acabado no século XIX, foi só em 1926 que a Liga das Nações
proibiu a escravidão, o tráfico de pessoas e a existência
de “condições análogas à escravidão”. Trinta anos
mais tarde, a ONU incluiu outras práticas no conceito de
escravidão: a servidão (na qual, em troca do acesso à
terra, a pessoa fica obrigada a trabalhar e a viver nela)
e o comércio de mulheres ou crianças, oferecidas em
matrimônio, no abatimento de uma dívida ou passadas em
herança como instrumentos de trabalho. No Brasil, as duas
medidas da ONU só entraram em vigor em 1966.
Em alguns países, como na Mauritânia (país pobre
africano dividido pelo Saara, meio árabe e meio negro), a
proibição da escravidão e da compra e venda de pessoas
só veio com o processo de independência, nos anos 1960.
O país, ao lado do Sudão e de Benin, encabeça a lista
de países acusados pela ONU de manter a prática do
trabalho escravo até hoje. O Unicef denuncia que cerca de
200 000 crianças são vendidas como escravas todos os
anos, no mundo.
Celso Ricardo
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